Por: Antônio Müller - presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (ABEMI)

muller_2014Muito se fala sobre problemas de infraestrutura e de atraso em grandes obras no Brasil, mas se olharmos friamente, o primeiro passo, que é uma boa engenharia, não é bem dado. Diversas obras no país começam – acredite – sem projeto. O que agrava ainda mais esse cenário é o fato de que a engenharia de projeto é a base de tudo.

Sempre que há um problema em uma obra, o motivo invariavelmente não é a construção nem a montagem, mas a falta de engenharia básica. Por outro lado, o sucesso de qualquer empreendimento é medido pela qualidade da engenharia, que é responsável por viabilizar o projeto dentro do custo programado e do prazo estipulado.

Se a quantidade de empreendimentos de engenharia industrial em andamento no Brasil é escassa, o desaquecimento torna-se ainda mais preocupante no que se refere à engenharia de projetos, que cumpre o relevante papel de elo de toda a cadeia.

Outro fator que mais prejudica as empresas de engenharia industrial diz respeito aos períodos de alta e vale na implementação dos empreendimentos. Por isso, o importante é a continuidade e a sustentabilidade dos projetos. Ocorre que não há novas obras para cobrir aquelas que estão em fase final. E que são bastante necessárias para o desenvolvimento do país.

A proximidade do término das grandes obras que tomaram o Brasil nos últimos anos, sejam referentes ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ou decorrentes da Copa do Mundo, já tem afetado a engenharia de projetos brasileira, que, em função do contexto econômico, vem apresentando significativa redução da sua capacidade produtiva.

É exatamente na fase da engenharia de projetos que equipamentos e materiais que integrarão a unidade industrial são especificados e adquiridos. Desse modo, a engenharia executada fora do país tenderá a nos deixar cada vez mais reféns de fornecedores do exterior, gerando uma espiral declinante de ocupação e competência. O início desse processo já pode ser constatado com a redução de milhares de postos de trabalho no segmento nos últimos 12 meses, com a consequente perda de investimentos em treinamento de mão de obra especializada e novas tecnologias.

Pesquisa recente realizada pela ABEMI – Associação Brasileira de Engenharia Industrial com seus associados em todo o país sobre as expectativas para 2014 revela que a maioria das empresas dos setores de Energia, Mineração e Siderurgia, Óleo e Gás, Infraestrutura, Papel e Celulose, e Química e Petroquímica irá reduzir ou manter os investimentos previstos para este ano. De acordo com o levantamento da Associação, se 42% das empresas do setor diminuíram o número de projetos em carteira em 2013, a previsão para este ano é que esse percentual seja elevado para 61%.

A relação entre produtividade e remuneração no Brasil em relação a outros países ajuda a ilustrar a situação. De 2004 a 2014, o Brasil aumentou sua produtividade em apenas 3%, ao passo que os Estados Unidos incrementaram em 19% e o México, um concorrente direto brasileiro, em 53%. Já o crescimento do salário no mesmo período se deu de maneira inversa no Brasil: chegou a 100%, contra 27% nos Estados Unidos e 67% no México.

Diante do panorama apresentado, é veemente a necessidade de novos projetos que assegurem o fortalecimento da engenharia brasileira. Afinal, nenhum país pode obter um crescimento sustentável e perene sem que a sua engenharia seja suficientemente competente e preparada para garantir esse desenvolvimento com qualidade e padrões internacionais, em se considerando a velocidade da evolução tecnológica atual.

Fonte: Jornal DCI