06/03/2014

Por Márcio Alberto Cancellara, Vice-Presidente da Associação Brasileira Industrial para a Revista Engenharia – ed. 618 

 

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Plataformas, navios, refinarias, oleodutos e uma série de outros equipamentos têm sido projetados e implantados pela engenharia brasileira para atender ao ciclo virtuoso vivido pela indústria nacional de petróleo nos últimos 15 anos. Felizmente, as empresas do setor de engenharia foram capazes de atender a esse enorme desafio e responder – com rapidez – à necessidade de formar equipes e atualizar-se tecnologicamente.

Cabe aqui lembrar o calvário sofrido pela área de engenharia nos anos 1980 e 1990, quando grandes projetos nacionais foram inteiramente paralisados, deixando desempregados milhares de engenheiros e técnicos com alto grau de especialização. Todos se lembram do “engenheiro que virou suco”. No mesmo período, empresas simplesmente desapareceram ou foram reduzidas a equipes mínimas pela falta de investimentos na indústria e na infraestrutura nacionais.

O resultado dessa situação nos anos recentes foi a convivência de profissionais seniores trabalhando ao lado de recém-formados em face da inexistência de profissionais de nível pleno, que praticamente não eram encontrados no mercado. Esta situação exigiu e exige ainda hoje investimentos pesados no treinamento e capacitação. Enfim, as duas décadas de “seca” deixaram marcas profundas na engenharia nacional.

Apesar dessa crise, a partir dos anos 2000 o setor conseguiu recompor-se e atualizar-se, seja no desenvolvimento e implantação de softwares, seja em equipamentos, mas, especialmente, na reciclagem de profissionais experientes e na formação de jovens engenheiros, capazes de atender aos novos desafios. As empresas investiram bastante em programas de certificação e hoje todas trabalham com os padrões de qualidade da ISO 9001, em acordo com as normas OSHAS, de saúde e segurança, e ISO 14001, de gestão ambiental.

Embora permaneçam questões fiscais e trabalhistas que reduzem a competitividade da economia brasileira, as empresas conquistaram um patamar de desenvolvimento constante e participam em praticamente todos os grandes projetos da indústria petrolífera no país, graças ao bom momento vivido pela Petrobras a partir do início deste século. Foi com esse vigor e com a perspectiva de exploração do petróleo da camada do pré-sal que a Petrobras conseguiu realizar, em 2010, a maior capitalização da história, atingindo a cifra de 120,2 bilhões de dólares.

No entanto, no auge de seu desempenho, a companhia passou a ser sacrificada e utilizada como ferramenta de controle dos preços dos combustíveis, forma de evitar o retorno da inflação, velho fantasma que apavora os brasileiros. Mesmo que justificável, a estratégia asfixiou a maior companhia brasileira e trouxe nuvens de preocupação a toda a cadeia produtiva do petróleo, incluindo o setor de engenharia industrial.A queda do ritmo dos investimentos na área de refino do petróleo reduziu drasticamente a demanda por serviços de engenharia de projeto em 2012 e 2013 e se afigura como dramática em 2014. As consequências imediatas nas empresas são demissões, a desmobilização de equipes e o retrocesso tecnológico. Até dezembro de 2013, as empresas de projeto que atuam no setor de óleo e gás já haviam demitido cerca de 40% de sua força de trabalho, incluindo engenheiros e vários outros profissionais de elevado nível técnico.

Uma preocupação é o retorno a uma situação já conhecida e que também pode se repetir em outras áreas da economia: o Brasil voltando à situação de importador de serviços de engenharia, tal qual na década de 1950.

E atenção: as empresas de projeto são um termômetro do futuro de obras e novos empreendimentos, o que sugere que demissões deverão ocorrer em outras frentes do setor de construção e montagem nos próximos meses. Estamos falando em milhares de postos de trabalho, que serão fechados a partir da conclusão das obras na Refinaria do Nordeste (RNEST) e na implantação das unidades para melhoria de qualidade do diesel e da gasolina nas refinarias existentes.

Por tudo isso, defendemos: a Petrobras precisa ser preservada.

Ainda não estamos vivendo a crise que dilacerou a engenharia nos anos 1990, mas todos os ingredientes do mesmo veneno já estão à mesa. Resta saber se as autoridades terão a sabedoria de livrar o setor de engenharia dessa maldição de Sísifo, o pastor de ovelhas condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima, dia após dia, pela eternidade.

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