cancellaraAcredito ser de conhecimento geral que os reflexos da crise dos anos 80 e 90 ainda estão presentes no setor de engenharia. O desmantelamento de equipes inteiras de profissionais naquela ocasião trouxe consequências gravíssimas que influenciaram toda uma geração de jovens em idade universitária, causando a evasão maciça de possíveis engenheiros para outras atividades.

A recuperação teve início nos anos 2000, exigindo das empresas e profissionais investimentos em treinamento, aquisição e manuseio das atuais tecnologias utilizadas no setor. Essa recuperação foi liderada pelos investimentos na área de Óleo e Gás e Petroquímica, secundada pelas áreas de Mineração e Siderurgia e Papel e Celulose.

O setor de engenharia de projetos industrial demandou a adoção de modernos processos de produção, envolvendo desde a elaboração de projetos em 3D até a criação de sistemas inteligentes capazes de absorver e controlar todas as informações pertinentes a um empreendimento, e reunindo projeto, suprimentos, planejamento, construção, montagem e comissionamento. Atualmente, já se trabalha com sistemas 4D, com melhorias contínuas na busca de sistemas mais avançados.

Graças a essa expertise, a engenharia de projetos industrial brasileira pôde se responsabilizar por grande parte dos empreendimentos do setor, apesar das condições conjunturais nem sempre favoráveis, como a falta de continuidade de serviços, carga tributária, falhas no incentivo à pesquisa e inovação, e alto custo de softwares especialistas, entre outras.

O momento presente se reveste de suma importância para o setor e deve ser suficientemente reportado em face dos riscos por que essa engenharia está passando. Com efeito, a redução dos investimentos industriais conduz necessariamente ao adiamento de projetos e, por conseguinte, à postergação de serviços de engenharia que poderiam alimentar o setor em fases de crise.

Com relação apenas à área de Óleo e Gás, é indubitavelmente compreensível que os pesados investimentos da Petrobras sejam concentrados em exploração e produção, reduzindo-se os aportes nas unidades industriais de processo. Ocorre que grande parte desses investimentos refere-se a afretamentos de sondas, navios e plataformas, cujos projetos invariavelmente são executados no exterior – não no Brasil. O resultado é que poucas empresas brasileiras tiveram condições de assimilar a tecnologia de projetos offshore.

Também na área de unidades industriais já se nota a presença de empresas estrangeiras desenvolvendo projetos em seus países, serviços que poderiam integralmente ser elaborados no Brasil. Mire-se o exemplo da Noruega, que possuía uma engenharia convencional. Quando houve a descoberta de petróleo no Mar do Norte, o país recebeu competente incentivo e planejamento governamental adequado, e se tornou um dos maiores exportadores de serviços de engenharia de Óleo e Gás no mundo.

Hoje não há exigência para a elaboração de projetos offshore no país, a despeito de cláusulas de conteúdo nacional existentes em contratos de exploração e produção de petróleo. Os novos contratos sob o regime de partilha talvez comecem a corrigir este desvio. Há projetos sendo elaborados na Holanda, China, Espanha e até mesmo na Romênia, quando poderiam ser realizados aqui mesmo, com a participação conjunta de empresas brasileiras e estrangeiras atuando em consórcio, nos casos em que fosse necessário.

Qual o motivo de não se exigir que empresas estrangeiras se instalem no Brasil para que possamos adquirir eventual tecnologia de que ainda não dispomos? Tome-se o exemplo da Espanha, que incentiva de forma significativa suas empresas a prestarem serviços no exterior considerando a grande crise que o país atravessa.

O fato é que atitudes e decisões tomadas sem o conhecimento de suas implicações no setor têm levado a demissões em massa nas empresas de engenharia de projeto industrial, trazendo grande preocupação de se retornar ao final da década de 80, conforme mencionado no início deste artigo.

De forma mais explícita, o setor tem feito uso intensivo de mão de obra qualificada e não foi contemplado com a desoneração da folha. No entanto, setores que tiveram nos últimos anos altíssimos índices de automação de sua produção foram beneficiados sem nenhuma contrapartida. A engenharia de projetos é responsável pela especificação de equipamentos e materiais de um empreendimento e exerce efeito multiplicador no fornecimento de bens a serem utilizados na unidade industrial.

A prática de contratações de implantação de empreendimentos baseada em projetos básicos inconsistentes e incompletos tem levado a frequentes acréscimos de prazo e custos, como se tronou corriqueiro noticiar na imprensa.Neste momento de retração do mercado industrial, por que não desenvolver os projetos executivos para resguardar as empresas especializadas e garantir a contratação dos empreendimentos em bases mais sólidas e definitivas?

O custo da engenharia de projetos mal atinge 5% do valor total de um empreendimento, quantia insignificante face aos benefícios obtidos com uma boa engenharia. Todos os países procuram resguardar a inteligência e a memória de sua engenharia dada a importância estratégica que este setor tem na vida de uma nação. Neste ponto cabe o alerta: um país sem engenharia somente poderá aspirar a se tornar um exportador de matérias-primas e nunca poderá se candidatar a ser uma nação do Primeiro Mundo.

*Márcio Alberto Cancellara é vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (ABEMI)

Fonte: Revista o Empreiteiro